Renata Amoras
Está passando da hora de pararmos de discutir o sexo dos anjos, quando o assunto é segurança pública. Nós, todos aqueles que revelamos publicamente nossos pensamentos clarividentes ou asneiras pretensiosas nas mídias; sejamos jornalistas, autoridades ou outros bichos estranhos.
Vou desligar a televisão, não comprarei mais jornais, e, pra não vacilar, deixarei de pagar a conta da Internet. Pronto. De agora em diante só lerei bons livros e ouvirei boa música. Será que assim, ao desligar-me do mundo, ele será mais bonito, mais cartão postal, mais Paraíso e menos Inferno? Suponho que não. A informação, ou melhor, o conhecimento, gerado pela reflexão e debate público, é imprescindível para que nós, habitantes deste planeta, tomemos atitudes em prol de toda a comunidade e de um futuro promissor para as gerações que nos sucederão.
Essa informação mobilizadora e libertadora está nos canais de comunicação. Bobagem desplugar-me, não adianta. Sem medo de ser feliz, levanto a bandeira por uma imprensa livre e responsável. Nesse sentido, é fundamental que o trabalho jornalístico seja respeitado e incentivado por aqueles não temem a verdade e que prestam contas à sociedade; que assumem seus erros e demonstram disposição em repará-los. Porque somente um país que respeita a liberdade de expressão pode se dizer democrático.
A imprensa é, pois, legitimada pela sociedade como sua representante. Nesse sentido, pode e deve assumir uma função fiscalizadora, embora nosso Presidente não pense assim. O equívoco está quando ela ultrapassa ou confunde essa missão, quando a denúncia se faz pela denúncia; quando o jogo político suplanta o interesse público. Ou pior, quando a informação não tem nenhum valor, a não ser o de afagar vaidades. E informação sem valor não gera conhecimento, portanto, não provoca mudança de comportamento. Empobrece e enfraquece a sociedade.
O povo bem informado luta por seus direitos; lembremo-nos do movimento pelas Diretas Já, do Impeachment e da emocionante vitória de um operário eleito para a Presidência do Brasil. Nossa história seria a mesma se ainda tivéssemos uma imprensa amordaçada? Se ela própria não fosse aguerrida e fiscalizadora da sociedade?
Se já vencemos a batalha por um país de direitos, que tal unirmos esforços pela paz? Esse é o anseio de uma população, cansada de tantas reportagens funestas.
Recentemente, fomos esbofeteados pela imagem de um helicóptero policial caindo em chamas no Rio de Janeiro, abatido por traficantes. Na mesma semana, evidenciando o estado caótico do sistema de segurança pública, e confirmando a existência de uma “banda podre” nas polícias, outras imagens revoltantes: o descaso de policiais cariocas com o corpo agonizante do coordenador de projetos sociais do grupo AfroReggae, Evandro João da Silva. Deboche total de quem deveria defender a vida.
Por outro lado, a burocracia e outras desculpas oficiais impedem de se tratar a segurança pública com a seriedade que ela exige. É governo acusando governo, num jogo de empurra lastimável. Enquanto isso, o cidadão vira alvo.
Em meio à guerra urbana instalada nas grandes cidades, a população não quer saber de quem é a responsabilidade, se do governo federal, estadual ou municipal. Ela quer é a solução, portanto, o mais lógico é somar esforços, fazer juntos a segurança pública. Existe alguma dúvida?
Da mesma forma como a sociedade brasileira conseguiu realizar o sonho de restabelecer o Estado democrático e recuperar seus direitos, agora é a vez da luta pelo Brasil seguro. Políticos, imprensa e sociedade precisam se irmanar nessa batalha entre o bem e o mal. Cada um no seu papel. Caso contrário, seremos como anjos caídos (pela omissão), sem chances de voltar ao Paraíso (por imerecimento), se é que ele existe.
De minha parte, recuso a passividade do papel de vítima da violência, quero ser protagonista na luta pela cultura de paz. Como profissional, mãe e cidadã, não me calo, nem me acomodarei.

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